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Destinatário: Vento

Sophia, não importa o que tu vais me falar, nem se vai ser com palavras, gestos ou cheiros, eu não quero mais ouvir nem sentir. Apenas não posso me permitir seguir vivendo um “ontem”, como se estivéssemos sendo pagos para atuar nessas cenas que insistimos em repetir em nossa cabeça, sem poder ter algum envolvimento. Cenas frias quando o que mais se quer é sentir algum calor, vestígio de faísca, se necessário. Portanto esqueça todas as maneiras que já me visses sorrir para ti e por ti, e comece a fingir que acredita que nunca precisamos ser algo maior do que somos sozinhos - pois mesmo juntos estaremos tão sozinhos quanto estamos agora.

Sophia, não importa o que você faça, nem se me entregar flores ou balas de goma coloridas, eu sei que nunca mais estarei dentro do seu coração. Sei que estarás tão fechada que não deixarás que eu esteja tão perto como estive antes, para fazer seus olhos brilharem da maneira que deveriam brilhar, e que não brilham mais. Se tu apenas soubesses como esses castanhos tem poder sobre mim, a ponto de me sequestrar desse quarto mesquinho e me fazer viajar pelas montanhas ou ver a areia molhada, cada vez que te olhava, mas eles não vão nem me cumprimentar a partir de hoje. Ah, se apenas seus olhos assistissem os meus por um momento e, como janelas que são, se abrissem para mim, eu perderia essa sensação de ter algo horrível se escondendo entre eu e tu. Como um monstro dos meus pesadelos de infância, saiu do nosso armário para amedontrar o que já estava frágil. Pois entre eu e tu - e digo “eu e tu” e não “nós”, porque já não há mais um “nós” - existem mundos, quase universos de distância, e em cada um eu vejo olhares pedindo socorro por corações sendo partidos, e acredite, eu não sinto vontade de visitá-los e nem de curá-los, pois não tenho o remédio certo ainda para curar o meu próprio. Então não perca tempo juntando suas mãos para rezar pedindo à Deus ou ao destino que tudo se cure em mim, pois eu irei apenas guardar suas orações em um velho saco e jogá-las em algum lugar qualquer, como quem decidiu desistir mesmo.

Sophia, acredite, eu nunca quis que fosse assim. Eu pensei que dessa vez as promessas seriam cumpridas e que tu serias a pessoa que estaria ao meu lado quando eu, com 84 anos, te pediria para fazer chocolate quente para nossos netos. Mas deixamos o sonho escapar e as promessas se quebrarem. Assistimos, mesmo com os olhos fechados, enquanto a correnteza forte levava a tudo que havia de nós em nós. Então por isso que te digo, Sophia, não vai mais importar o futuro ou o passado, talvez nem o presente importe, pois não vamos mais precisar fingir que esse campo de guerra tem cheiro de flores.

Porque depois de tudo, não há mais nada que eu possa fazer por ti e por mim.

 Atenciosamente, alguém do passado.