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Se a gente esperar até ficarmos prontos, vamos esperar a vida toda.

- Oi.

- E aí, tudo bem?

- Tudo e contigo?

(As frases que você me disse enquanto dormia são os segredos que guardo até hoje. Eu sei que você também sente isso, a ruga que se forma nos seus olhos quando você sorri me conta. E mais do que isso, suas costas arqueadas quando te abraço quase me gritam o mesmo. Eu as amarei daqui até as estrelas. Eu não vou deixar essas minhas frases soltas e desesperadas escaparem da minha boca mais uma vez, não se preocupe. Tudo o que precisou foi um olhar e eu as trancafiei como aprendi tão bem em outros tempos, mas, se caso elas se desprendam, são sobre você e apenas você. Eu nunca poderia nem conseguiria negar.)

- Tudo.

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Stella.

Tu fostes o único que conseguiu ver meu quarto pegando fogo lá da esquina quando as janelas estavam fechadas. Foi o cheiro da fumaça? Já passastes por isso também? Te reconhecestes? Em todo caso, obrigado por me salvar e tentar apagar as chamas com aquele vaso em que cultivavas tua flor. Teu subconsciente deve ter pensado que se algo cria vida, também é capaz de salvar uma. Pena que não é tão simples assim, pois apenas vou esperar tu saires de perto e correr lá para dentro de novo.

Eu sei que o amor é complicado, mas, depois de tanto tempo, é tudo o que temos.

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Branco.

Respira.

Acalma.

Raciocina.

Empurra.

Te ajuda, mãezinha, te ajuda. Nos ajuda.

Não grita, respira.

Nos ajuda.

Isso, aperta a minha mão se precisar, mas empurra.

Tá vindo, mãe!

Tá vindo, doutor!

Enfermeira, tá vindo!

Acadêmica, ajuda! Tá vindo!

Empurra, mãezinha. Tá quase lá.

Olha o cordão, doutor, o cordão.

Manobra rápido, enfermeira!

Tá saindo. Mais um pouquinho. Não grita, empurra!

Saiu!

Clampeia aqui, clampeia ali, sutura e corta.

Chora, bebê. Chora.

Por que não chora? Por que não grita?

Olha para mim, mãe. Segura a minha mão.

Por que não chora?

Entuba, enfermeira.

Entuba, acadêmica.

Adrenalina, doutor.

Acorda, bebê.

Por que não acorda? Por que não chora?

Espera, mãezinha. Não olha, segura a minha mão.

Sutura. Relaxa.

Ambú, enfermeira, ambú!

Respira.

Respira.

Respira.

Por que não respira? Por que não chora?

Adrenalina, doutor.

Mais um pouco, doutor.

Bip. Bip. Bip. Bip.

Voltou.

Voltou.

Todo mundo afasta.

Afasta, acadêmica, afasta.

Olha o tórax, olha a cor da pele.

Ele voltou.

Chorou.

Gritou.

Olha, mãe, ele tá te dando oi!

Bem vindo, bebê. Bem vindo.

Obrigada.

Obrigada, bebê.

Chora mais, pode chorar.

Nunca um choro me fez sentir tão viva.

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Acoustic #5

Péssima escolha de palavras. Repete comigo: péssima escolha de palavras. O que era verde escureceu até o negro e já quase não o enxergo. Me disseram que assim é bom, que faz bem: “O que os olhos não vêem, o coração não sente”, mas e se meus olhos aprenderem a te identificar nos azuis de outro alguém? De que vai adiantar essa fuga inaceitável quando estarás em todo outro canto e rima e cor? 

Prefiro não pensar.

Folha que voa e que cai, conhece o céu e volta aos pés. Brilha onde estiver, se estiver. 

Não quero que pense que meus pés não saem do chão ou que não sorrio como se todas as vidas do mundo estivessem salvas e encaminhadas pelas minhas mãos, pois venho por meio deste te dizer que às vezes faço isso. Apenas não sei se outras cores me farão voar como antes.

Corre pra lá, só não corre pro meu lado. Não hoje, pelo menos. Ou corre mesmo, já nem sei mais o que é menos pior. Deixa que o vento feche a janela que deixasses aberta. Deixa que a música acabe em fade-out. Deixa que a poeira siga nos nossos olhos, se assim ela preferir. Um dia ela também irá voar. Mas, por enquanto, é obsceno o tamanho do rombo desse silêncio.

Daqui a 50 anos ainda vou lembrar do teu nome e de todas as vezes que tu me fez sorrir.

Sinceramente,

Alguém-do-passado.

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Quase verdes

- Por onde queres que eu comece?

- Com o que?

- A te contar sobre como gosto de ti. Não que tu não saibas, mas gosto de te lembrar.

Ela sorriu um sorriso encabulado, aquele velho sorriso (o mais lindo do mundo, quiçá do universo) que ela mostra quando não quer mostrar, mas não consegue conter. Aquele em que ela não mostra os dentes pois abaixa a cabeça, deixando o cabelo preto cair sobre os olhos, que ficam quase fechados. Não me respondeu.

- E então? Ordem alfabética ou por preferência?

Sorriu de novo, de um jeito um pouco menos envergonhado dessa vez. A falta de respostas dela me fazia pensar se estava incomodando ou sendo piegas demais. Ninguém quer ser piegas demais, nem mesmo alguém como eu. Finalmente, para meu alívio, ouvi o que considerei uma liberação para continuar falando baboseiras apaixonadas:

- Quero te abraçar.

- E desde quando abraço tem hora?

Então ela me abraçou. Passou os braços em volta do meu pescoço e segurou firme, como se fosse cair se soltasse por um segundo, e eu a segurei pela cintura, tentando mandar a mensagem subliminar “não vais cair, eu tô aqui, é meu trabalho não te soltar!”. Senti o cheiro do perfume dela (Ou seria sabonete? Talvez apenas os tais feromônios), e desejei que esses momentos se repetissem tanto a ponto de nos enjoarmos, como se fosse possível.

Ficamos tanto tempo assim que senti saudade da voz dela. Mais precisamente, da voz que ela só mostra pra mim - quando a gente ama, até a nossa voz muda perto da pessoa!

- Não vais me deixar falar né?

- Tenho vergonha!

- Eu também, mas vou falar mesmo assim! Em primeiro lugar, queria dizer que amo…

Ela me interrompeu para me dar um beijo, acho que foi de propósito mesmo para me mandar calar a  boca. Claro que não obedeci.

- Amo teus olhos quase-verdes e o que eles me transmitem. Amo o jeito que arqueias as costas quando te puxo pela cintura. Amo quando abres a bolsa para pegar qualquer coisa que prenda teu cabelo num coque, ou quando prendes ele sem nada mesmo, como num passe de mágica para leigos como eu. Mas também amo ver ele solto, num degradê que vai do preto até o vinho. Amo tua cara de sono, os olhos pesados. Amo quando faço carinho entre as tuas sobrancelhas e te deixo com mais sono ainda.

Parei um pouco para respirar. Ela me tira o fôlego.

- Amo a nossa posição de dormir. Amo os ruídos estranhos que fazes enquanto sonhas, apesar de me assustar às vezes com o que parecem ser pesadelos. Amo me sentir o item número um da tua lista de coisas para fazer, pessoas com quem rir, psicólogos para desabafar.

Vi aquele sorriso de novo, parece que ela faz de propósito, é inacreditável! É capaz de distrair até o mais profissional dos profissionais em declarações de amor.

- Ah, amo teu sorriso e o jeito que tu me mostras ele sempre que me vês. Amo quem tu és, por dentro, além de tudo o que todos vêem. Amo tua personalidade forte, teu ar sereno, tua ambição, tua sensibilidade e tua não-futilidade.

É preciso ser um curinga dos bons para não se moldar ao mundo em que ela se encontra.

- Eu poderia passar mais uma eternidade aqui, mas acho que o “amo…” que mais quero te dizer é que amo o fato de tu seres minha. Não no sentido de posse, mas no sentido de entrega. Tu quer ser minha, e eu sou mais do que feliz em aceitar presente tão grande.

Parei para soltar meu suspiro de decepção: jamais saberei colocar sentido em palavras para explicar a ela o que sinto, mas dessa vez pareceu suficiente pois ela me abraçou de novo, dessa vez mais forte do que nunca. Senti suas bochechas pressionarem as minhas, tamanho o sorriso que ela abre quando falo essas coisas - é um sorriso nada envergonhado! 

Fazê-la sorrir é o que mais me faz feliz.

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Acoustic #2 - 2010

Atrás de cortinas empoeiradas nasceram esperanças sobre um alguém que poderia salvar a vida dos outros, é, daquele jeito super-herói mesmo. Egoísmo a parte, mais precisamente a minha vida. Um sonho tão ingênuo que parecia irreal até você chegar aqui, abrir as portas e janelas, deixando toda a luz do dia entrar. Tirou as teias de aranha e os álbuns de fotografia passados. Assim mesmo, chegou e mudou tudo ao meu redor, se instalando profundamente na minha essência. Vivi essa primavera, esse vento, essa espera pelo mais bonito, e olha só que surpresa: flores atrofiadas. Daquelas que nascem perfeitas mas se esgotam, secam de sua fonte vital. Atrofiam. E parece que foi exatamente assim que as coisas ocorreram entre nós. Sua alegria se esgotou, menina, aquele brilho no olhar está como as flores dessa minha primavera, e nem adianta mais saber quanto tempo faz. Eu desapareci na fumaça do fogo que você deixou queimar ali, na sua frente, do seu lado. Horas e datas já não dizem mais nada. As horas vão se amontoando nos cantos, formando dias, e tudo que vejo é aquele vazio. Como uma rosa, ela está tão ocupada apenas sendo rosa que não sobra tempo para se questionar sobre qualquer outra coisa; e eu estou ocupada tentando lidar com tantos sentimentos completamente fora de controle, fora de lugar, fora de tempo. Não espero que algo muito “bom” aconteça na minha vida, afinal, nem acredito mais nessa palavra. Só espero que um dia você volte e abra as cortinas do meu quarto novamente, deixando toda aquela vida entrar à minha volta, e se isso acontecer, que seja do jeito mais puro e sincero que existe, pois de promessas falsas e atitudes impulsivas estou farta. Mas se não voltar, espero que um dia você entenda o quando a sua distração me dói, o quanto esse seu silêncio me rasga. O quanto machuca ver que se estragamos o que poderíamos ser, não foi por causa das nossas muitas brigas ou diferenças, foi porque desistimos de ser aquilo que sempre fomos. Pois pouco me importava se você me preenchia como deveria, o importante era que me preenchia do vazio. E eu te protegia da vida.

Quem sabe o que o destino tinha preparado para nós nesses dois anos? Seria diferente? Me explica, que às vezes tenho medo. Me explica se um dia você vai voltar e ser o amor da minha, ou se deixo as flores secarem completamente até se tornarem apenas uma memória.

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How to save a life

Ele sentou do meu lado com roupas rasgadas, um cabelo mal cuidado e uma barba por fazer, mas com um violão nas costas. Me contou a história da vida dele, da família que nunca conheceu, da filha, sobre como tinha que morar embaixo de pontes ou de favor na casa de alguém, mas, principalmente, me contou sobre a motivação que ele tinha para seguir os sonhos diante de tantas barreiras. Me falou sobre isso com tanta emoção que pensei que seus sonhos fossem sobre seus problemas pessoais, até que ele falou:

“Fazes Enfermagem, vi no teu moleton. Acho que vamos nos dar bem pois o sonho que tanto te falo é salvar a vida das pessoas. A gente só se salva depois de salvar os outros.”

Foi uma fração de segundo. Foi o mundo inteiro passando pelos meus olhos.

De repente eu senti que precisava voltar todos os dias àquele banco de cimento só para poder ouvir mais um desses discursos impactantes dele.

No mesmo minuto passei a ver a transposição de cores nesse céu se tornar escura, fazendo a lua acordar e o sol se pôr enquanto conversávamos, como se as horas estivessem passando como segundos. Assisti em câmera lenta a trajetória de cada folha seca que caía ao meu lado, fazendo contraste com o chão cinza e sujo daquela praça, enquanto antes só via vultos de andarilhos indo e voltando do trabalho. Parece até que foi arquitetura dele toda essa vontade de abrir os olhos e ver a vida do jeito que ele via: como um sonho, um filme. Achei que tudo que brilhava estava predestinado a desvanecer, e agora só penso em escrever cartas que realmente vão ser enviadas, em vender minha moto para comprar uma bicicleta, sentar na grama de várias cidades para assistir até que a última estrela daquele céu se apague, feliz.

Dar voltas no mundo e inpirar alguém a mudar toda essa realidade, e depois voltar nesse banco de cimento e contar para ele sobre todas as maneiras que ele salvou a minha vida.

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Lullaby

Ah, meu menininho, somos só nós dois essa noite. Vamos usar esse tempo para termos uma conversa - e sei que não falas, mas escutas, certo? Então deixe-me confessar uma coisa: não fostes feito para sofrer nem suprir minhas expectativas. Fostes feito para dar à tua mãe um motivo para viver. Tem vezes que as pessoas precisam viver para outras para se sentirem completas, embora isso te pareça estranho por enquanto. Te falarei melhor sobre isso daqui alguns anos. Eu sei, pequeno, só consegues dormir quando colocas tua mão - de 5 centímetros - em volta do meu dedo, e dormes tão profundamente que às vezes sinto saudade desses olhos cor de mar assistindo cada movimento meu com curiosidade. Ah, e que olhos! Mais parecem pequenas ondas, e não sei de quem os herdasse, mas os veste com perfeição. Suas manias, sei todas de cor, mesmo sabendo que ainda terás outras inúmeras, que seguirei estudando para quando não quiseres ou não conseguires me expressar algo verbalmente - assim saberei exatamente o que tu precisas. Daqui a alguns anos vamos quebrar todas as regras quando eu te chamarei para brincar e tu me dirás “mãe, tenho deveres”, enchendo meu peito de orgulho do meu pequeno homem. Em outras ocasiões, te mostrarei meus textos, cartas e desabafos - leituras densas e cansativas, mas que olharás com calma por te interessar pelos sentimentos da tua mãe. Ah, pequeno, terei ciúme de todas as tuas namoradas e de todos os teus amigos, terei medo de que te façam mais feliz do que eu posso fazer. Chorarei com todas as nossas brigas, mas sorrirei três vezes mais a cada abraço de reconciliação, onde esses teus azuis me fitam e me dizem “Eu te amo, mãe”, e cada palavra fará minha vida valer a pena.

Sonha alto essa tua mãe, não é? E nesse tempo todo apenas dormistes segurando meu dedo, meu menininho…

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I can’t deny

Que todas as outras me desculpem, mas essa menina é a minha menina. Talvez seja o jeito como ela expira a fumaça do cigarro e depois arruma o cabelo, ou ainda o sorriso que ela me mostra quase escondendo os olhos castanhos-quase-verdes que me deixa assim. Como pode? Não sei, realmente não sei, porque de onde eu venho esse sorriso não é comum. Esse do tipo mandão, que ordena meu coração a disparar e minhas mãos suarem a cada vez que vejo. A única coisa que sei é que ela é feita de contrastes, e não me peça para colocar isso em palavras, já vistes alguém explicar uma cor? O que posso dizer é que cada detalhe nela brilha em uma cor diferente, como se fosse neon, enquanto as outras pessoas parecem ser monocromáticas - ou coloridinhas, no máximo. Cada cor nela mais parece uma placa vintage que diz “Me decifra!”, e os olhos dela me acompanham como quem diz “Eu tô aqui, não sai de mim”. Olho pros lados tentando encontrar algo para me segurar, caso acabe caindo dentro dela, mas nunca encontro. É, ela é a parte colorida do meu dia. Sei que não podes demorar aqui, mas não queria te dar aquele abraço de despedida e voltar pro mundo monocromático, então fica! Ou vai, se me prometer que volta.
Que todas as outras me desculpem, mas essa menina é a minha menina.