
- Por onde queres que eu comece?
- Com o que?
- A te contar sobre como gosto de ti. Não que tu não saibas, mas gosto de te lembrar.
Ela sorriu um sorriso encabulado, aquele velho sorriso (o mais lindo do mundo, quiçá do universo) que ela mostra quando não quer mostrar, mas não consegue conter. Aquele em que ela não mostra os dentes pois abaixa a cabeça, deixando o cabelo preto cair sobre os olhos, que ficam quase fechados. Não me respondeu.
- E então? Ordem alfabética ou por preferência?
Sorriu de novo, de um jeito um pouco menos envergonhado dessa vez. A falta de respostas dela me fazia pensar se estava incomodando ou sendo piegas demais. Ninguém quer ser piegas demais, nem mesmo alguém como eu. Finalmente, para meu alívio, ouvi o que considerei uma liberação para continuar falando baboseiras apaixonadas:
- Quero te abraçar.
- E desde quando abraço tem hora?
Então ela me abraçou. Passou os braços em volta do meu pescoço e segurou firme, como se fosse cair se soltasse por um segundo, e eu a segurei pela cintura, tentando mandar a mensagem subliminar “não vais cair, eu tô aqui, é meu trabalho não te soltar!”. Senti o cheiro do perfume dela (Ou seria sabonete? Talvez apenas os tais feromônios), e desejei que esses momentos se repetissem tanto a ponto de nos enjoarmos, como se fosse possível.
Ficamos tanto tempo assim que senti saudade da voz dela. Mais precisamente, da voz que ela só mostra pra mim - quando a gente ama, até a nossa voz muda perto da pessoa!
- Não vais me deixar falar né?
- Tenho vergonha!
- Eu também, mas vou falar mesmo assim! Em primeiro lugar, queria dizer que amo…
Ela me interrompeu para me dar um beijo, acho que foi de propósito mesmo para me mandar calar a boca. Claro que não obedeci.
- Amo teus olhos quase-verdes e o que eles me transmitem. Amo o jeito que arqueias as costas quando te puxo pela cintura. Amo quando abres a bolsa para pegar qualquer coisa que prenda teu cabelo num coque, ou quando prendes ele sem nada mesmo, como num passe de mágica para leigos como eu. Mas também amo ver ele solto, num degradê que vai do preto até o vinho. Amo tua cara de sono, os olhos pesados. Amo quando faço carinho entre as tuas sobrancelhas e te deixo com mais sono ainda.
Parei um pouco para respirar. Ela me tira o fôlego.
- Amo a nossa posição de dormir. Amo os ruídos estranhos que fazes enquanto sonhas, apesar de me assustar às vezes com o que parecem ser pesadelos. Amo me sentir o item número um da tua lista de coisas para fazer, pessoas com quem rir, psicólogos para desabafar.
Vi aquele sorriso de novo, parece que ela faz de propósito, é inacreditável! É capaz de distrair até o mais profissional dos profissionais em declarações de amor.
- Ah, amo teu sorriso e o jeito que tu me mostras ele sempre que me vês. Amo quem tu és, por dentro, além de tudo o que todos vêem. Amo tua personalidade forte, teu ar sereno, tua ambição, tua sensibilidade e tua não-futilidade.
É preciso ser um curinga dos bons para não se moldar ao mundo em que ela se encontra.
- Eu poderia passar mais uma eternidade aqui, mas acho que o “amo…” que mais quero te dizer é que amo o fato de tu seres minha. Não no sentido de posse, mas no sentido de entrega. Tu quer ser minha, e eu sou mais do que feliz em aceitar presente tão grande.
Parei para soltar meu suspiro de decepção: jamais saberei colocar sentido em palavras para explicar a ela o que sinto, mas dessa vez pareceu suficiente pois ela me abraçou de novo, dessa vez mais forte do que nunca. Senti suas bochechas pressionarem as minhas, tamanho o sorriso que ela abre quando falo essas coisas - é um sorriso nada envergonhado!
Fazê-la sorrir é o que mais me faz feliz.